Por De Nora Gómez Torres, Kevin G. Hall e Joseph Poliszuk
O então presidente venezuelano Hugo Chávez prometeu em 2007 que a nova Linha 5 do Metrô de Caracas estaria pronta em 5 anos. Dez anos e bilhões de dólares depois, apenas uma das 9 estações planejadas foi concluída.
De qualquer forma, 1 objetivo foi alcançado. Funcionários do alto escalão do governo chavista fraudaram o contrato por milhões de dólares em subornos. Para conseguir a lucrativa obra do metrô de Caracas e outras, a Odebrecht pagou pelo menos US$ 142 milhões –não oficiais, por meio de uma série de intermediários– de acordo com documentos inéditos.
Pelo menos US$ 92 milhões foram movimentados usando uma empresa offshore cujo beneficiário é 1 venezuelano, Leopoldo Briceño Punceles, que possui propriedades e negócios em Miami.
“Se o dinheiro sujo da Odebrecht fosse da Venezuela para Miami por meio de empresas-fantasmas, isso deve ser imediatamente investigado”, disse o senador republicano da Flórida Marco Rubio em 1 comunicado enviado ao Miami Herald.
Esses números foram obtidos de 1 enorme vazamento de registros internos pertencentes à Odebrecht S.A., 1 conglomerado brasileiro de construção civil com grande presença no sul da Flórida por meio de subsidiárias. Uma equipe de 19 organizações de mídia, liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, incluindo o Miami Herald, o Nuevo Herald e a empresa controladora McClatchy, além do Armando Info, sediado na Venezuela, revisaram os documentos, incluindo e-mails, ordens de pagamento, planilhas do Excel e registros de logs.
No Brasil, fazem parte da iniciativa o jornal digital Poder360 e a revista Época. Os registros vazados revelam pagamentos secretos em toda a América, que se estendem muito além do que foi publicamente relatado pelos delatores da empreiteira.
Os documentos estavam em uma plataforma chamada Drousys, 1 sistema eletrônico secreto de comunicação criado pela Divisão de Operações Estruturadas da Odebrecht especificamente para guardar informações sobre subornos e outros pagamentos não declarados. A unidade ficou conhecida como “Divisão de Propina da Odebrecht”.
O ICIJ decidiu não divulgar todos os documentos na íntegra. Publicará apenas partes de arquivos que puderam ser checadas pelos seus jornalistas, sempre dando direito de manifestação aos citados. Muitos dos arquivos têm informações sensíveis que não podem ser levadas a público sem checagem prévia, sob o risco de expor e fazer acusações indevidas a pessoas e empresas.
As informações mostram a corrupção desenfreada nos altos escalões do governo na Venezuela e identificam alguns dos indivíduos que atuaram nos bastidores e desempenharam papéis fundamentais.
“Pagar propina tornou-se 1 modo de vida na Venezuela. Esse tipo de prática é a regra na maioria das empresas estatais, onde os funcionários que ganham US$ 10 por mês conseguem emitir cheques para empreiteiras no valor de milhões e desfrutam de uma boa vida em meio a toda a ruína e pobreza causadas pela própria corrupção“, disse José Amalio Graterol, 1 advogado venezuelano exilado.
No decorrer das investigações no Brasil e nos Estados Unidos, altos executivos da Odebrecht admitiram que a Divisão de Operações Estruturadas foi criada para facilitar práticas corruptas. A divisão transferiu o dinheiro por meio de uma série de artifícios, como pagamentos indevidos a prestadores de serviços e terceirizados que não apareciam nos orçamentos oficiais dos projetos.
Muitas desses pagamentos eram subornos para políticos e burocratas no Brasil e em outros países, com o objetivo de obter privilégios na concessão de contratos.
Esses privilégios não saíram baratos. O Departamento de Justiça dos EUA estima que, de 2001 a 2016, a Odebrecht SA desembolsou quase US$ 788 milhões para mais de 100 projetos em 12 países, 10 deles na América Latina: Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Panamá, Peru, República Dominicana e Venezuela. Este último país responsável por grande parte desse valor.
A empresa confessou ter entregado ilegalmente US$ 98 milhões, a maioria pagamentos ligados a projetos nunca concluídos durante o governo de Hugo Chávez, passados para a administração de seu sucessor, Nicolás Maduro. Registros no Drousys indicam que os pagamentos totalizaram pelo menos US$ 142 milhões apenas de 2011 a 2014, logo o valor final pode ser ainda maior.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, usou a Odebrecht como uma ferramenta política externa na região. A presença massiva da empreiteira na Venezuela mostra a importância que o Brasil deu a seu vizinho rico em petróleo na busca do objetivo comum de desafiar a influência norte-americana, disse Thomas Shannon, embaixador dos EUA no Brasil de 2010 a 2013.
“A eleição de Chávez , a animosidade entre Chávez e os Estados Unidos e os esforços de Chávez para limitar a influência dos EUA na determinação da política externa venezuelana”, observou o ex-diplomata norte-americano, “tornam-se uma ferramenta importante que o Brasil usa para construir uma grande América do Sul, coesa, que o Brasil já buscava há muito tempo ”.
O Brasil usou a Odebrecht para consolidar o relacionamento com Chávez, que aprovou milhões de dólares em contratos sem licitação para a construtora brasileira, enriquecendo funcionários do governo ao longo do caminho.
A crença de que o dinheiro lavado pelos membros do regime chavista acabou no mercado imobiliário do sul da Flórida –1 segredo revelado por muitos exilados venezuelanos– levou à criação no ano passado do Miami International Corruption Squad (Esquadrão de Corrupção Internacional em Miami, em tradução livre), uma força-tarefa para investigar dinheiro sujo que chega à cidade.
Até agora, a rota secreta do dinheiro da Odebrecht na Venezuela leva a Haiman El Troudi, atualmente deputado da Assembleia Nacional da Venezuela, mas ministro de obras públicas de 2013 a 2015 e presidente do Metrô de Caracas de 2010 a 2015 e do Metrô de Los Teques de 2010 a 2014.
Embora o alegado envolvimento de El Troudi com a Odebrecht tenha sido divulgado há 2 anos, o regime de Maduro tentou silenciar o escândalo, e promotores que tentaram processar o ex-ministro agora vivem no exílio. Mas os documentos antes secretos da Drousys não deixam dúvidas de que a empreiteira brasileira fez grandes pagamentos irregulares para projetos supervisionados por El Troudi e empresas ligadas a pessoas de seu círculo íntimo.
Para que isso funcionasse, no entanto, a Odebrecht precisava de dezenas de empresas offshore para canalizar pagamentos ilícitos. E os processos judiciais nos Estados Unidos e no Brasil deixam claro que o papel da Divisão de Operações Estruturadas era apenas esse, usar intermediários que emprestavam seus nomes em troca de dinheiro.
Poder 360
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